sábado, 14 de maio de 2011

Ao mestre, com bastante bullying

Sou professor da rede estadual da Bahia desde 2000, atualmente leciono no Colégio Estadual Eraldo Tinoco de Melo, desde 2004, ano que começou meu pesadelo, no princípio era muito bom, mas a partir do final do ano letivo alguns alunos que só iam para o estabelecimento para bagunçar começaram a me chamar de “bob esponja”, no início não fazia a menor ideia que aquilo era comigo, só no inicio do ano letivo de 2005 que vim a entender quem era o alvo das chacotas e das piadas, procurei o diretor da escola e contei-lhe o fato, esse sequer tomou alguma providência, apenas me disse para não ligar, como se aquilo fosse uma bobagem, o ano passou e eu continuei sendo alvo do bullying, aquilo que para ele não era nada me destroçava a cada vez que um aluno passava pela porta ou janela da sala e gritava o nome obsceno, eu sempre me encolhendo, me sentindo um nada. O tempo foi passando e a coisa nunca melhorava, só tinha sossego quando estava em férias, mas ao retornar para o próximo ano letivo om pesadelo começava.

Em 2006 assume a direção da escola uma diretora, pensei que que ela fosse por um fim nesse tormento, pois de todos os professores eu sou o único a ser atormentado pelos alunos, os outros professores são respeitados, mesmos os faltosos, esse são idolatrados, mas eu e uma outra professora M. J. somos tratados como cachorros, eles sempre dizem “lá vem o cão”, “lá vem a Louca”, “peste chegou” ou “o diabo chegou”, sem falar das inúmeras tentativas de criarem tumultos ao receberem as avaliações com notas extremamente baixas, pois no momento que estou a explicar uma aula eles estão ouvindo pagode ou axé no celular, e não pode-se pedir que desliguem, pois pode acarretar uma onda de violência gratuita, também é costume dos alunos guardarem as bicicletas dentro das salas, o que é proibido, quanto ao fardamento, esse se resume a uma camisa com o escudo da escola, nos pés pode ser qualquer coisa, calça ou bermudas, não importa e na cabeça, mesmo à noite um imponente boné virado para trás, livros? Não levam, mesmo agora que lhes foi liberado alguns livros didáticos que não atendem ao parco conhecimento destes, boa parcela deles não conseguem compreender o que estão a ler, isso quando leem, uma vez que alguns ainda têm dificuldades com as palavras. Isso tudo se refere a alunos adultos e cursando da 1º ao 3º anos, ou seja, que está a concluir o segundo grau, e têm também os que cursam dois anos num só, o famoso EJA, outra coisa bizarra criada pelo MEC. Esses conseguem ser piores em tudo.

O mais interessante é que somos forçados a aprova-los, coisa que uma pessoa sensata não consegue compreender, mas voltando ao cerne da questão principal, o meu pesadelo continuou até o ano passado, 2010, quando a Vice-Diretora do turno noturno começou a combater, deu um pouco de alívio, mesmo assim um ou outro aluno passava pela porta gritava, isso sempre me estressa, tenho dor no estômago e muitas vezes chego em casa com enxaqueca. Nesses anos, já tive meu carro riscado inúmeras vezes, pneu furado nem dá para contar, e em 2008 um aluno cortou a mangueira de combustível e o carro incendiou, mas por sorte consegui apagar o fogo, os danos foram mínimos, ou seja, ele não atingiu o objetivo.

Neste ano, já furaram o pneu do carro e riscaram o capô. O bullying, voltou forte, tanto que estou procurando outra escola, pois sei que a diretora não vai resolver nada, isso sei por experiência, conversei com ela no início de abril sobre o bullying e as agressões e ela disse que ia tentar resolver, mas que não queria que se espalhasse para “não por mais lenha na fogueira”, não adiantou muito, continua o meu tormento, tanto o bullying quanto as ameaças e as agressões verbais, que por pouco não se tornam agressões físicas.

Basta que um bendito aluno tire uma nota baixa, pois não dão a mínima para os estudos, eles alegam que minhas aulas são chatas, enfadonhas, mas não dá para fazer muito, há um equipamento de multimídia que não é possível usar, fica trancado na sala da diretora, “é muito caro”, pode quebrar”, uma vez fiz várias solicitações para usar, só fui atendido em duas vezes, hoje me sinto constrangido em pedir tal equipamento. Neste colégio sempre dei mais aulas de Inglês ou Filosofia que da minha matéria, Geografia, atualmente estou nessa situação. Não temos mapas e uma “biblioteca” que se resume a um depósito de livros didáticos, portanto faço o máximo para ministrar uma aula de qualidade, e isso quer dizer escrever um mesmo assunto cinco vezes durante as aulas são cinco turmas de Filosofia com duas aulas cada, a todos eu sempre passo um conteúdo, mínimo, pois a capacidade de abstração dos alunos é bem baixa, não dá para trabalhar os conteúdos como foram planejados. Também não importa quem esteja ali na frente, poderia ser o próprio Deus que eles estão “cagando”. O ambiente escolar só lhes serve para encontros, momentos de lazer e perturbar alguns professores.

Já não suporto mais entrar nas salas, sempre tem um engraçadinho a fazer piadas e me desacatar, hoje por fim pude ver o rosto de um deles que me chama de “B. E.”, pois a vergonha é tanta que não consigo olhar na cara deles, tenho vontade de morrer quando isso acontece, e eles sabem que isso me maltrata, é por isso que eles sempre o fazem. O que não consigo entender é que são adultos, todos acima dos dezoito anos e possuem um comportamento infantilóde. Gritam ao passarem pelo pátio, ligam o celular durante as aulas, ouvem “música” a todo volume, fumam as substâncias alucinógenas e ninguém pode sequer pensar em reclamar. O aluno que me desacatou na sala não havia feito a avaliação de Filosofia, uma vez que falta muito, dei-lhe uma oportunidade e ele veio me perguntar sobre uma questão da prova, tentei lhe explicar o que era o ceticismo, ele partiu para a estupidez, citando coisas da Bíblia, perguntando se eu acreditava em Deus, eu tentando lhe explicar que era aula de Filosofia e que a religião não fazia parte daquele contexto, ele continuava a insistir, por disse que outros professores dele eram melhores e que era por isso que todos me chamavam de ... “nome do personagem de desenho que vive no fundo do mar”, chamou-me de doido e saiu, outro aluno escreveu no quadro o xingamento. Fotografei com a câmera do meu celular para mostrar a diretora, para ela ver que a coisa não acabou. A cada vez que tenho que ir ao meu ambiente de trabalho fico com medo do que pode acontecer lá, não me sinto bem, pois se tornou um tormento entrar em qualquer sala daquele colégio.

Fonte: Jornal do Brasil

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