terça-feira, 7 de abril de 2015

Famílias de vítimas da chacina de Realengo mantêm luta contra bullying

Massacre completa quatro anos e ONG trabalha para que ele não se repita. Ao G1, mãe de uma das vítimas relata a dificuldade para superar a perda.


Cristina BoeckelDo G1 Rio
Luiza Paula foi uma das vítimas do massacre em Realengo. (Foto: Reprodução/ TV Globo)Luiza Paula foi uma das vítimas do massacre em Realengo. (Foto: Reprodução/ TV Globo)
Quatro anos após a chacina que vitimou a sua filha Luiza Paula na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio, Adriana Silveira tenta amenizar a dor da perda lutando contra a violência. Por meio da ONG Anjos de Realengo, ela se uniu às famílias das outras crianças e adolescentes mortos no massacre. O grupo tem como principal bandeira a luta contra o bullying - suposta motivação do autor do atentado.

A data em que Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, matou a tiros os 12 alunos da escola se tornou o Dia Nacional de Combate ao Bullying. Ele era ex-aluno da escola e teria sido vítima de bullying por lá. Armado com dois revólveres, ele entrou no prédio, naquela manhã de 7 de abril de 2011, dizendo que daria uma palestra e abriu fogo contra os alunos. Dos 12 mortos, apenas dois eram meninos. Uma carta encontrada com ele, que se suicidou após a chegada da polícia ao prédio, indicava que o crime havia sido premeditado.
Adriana se apega a fotografias para matar as saudades da filha Luiza (Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal)Adriana se apega a fotografias para matar as
saudades da filha Luiza
(Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal)
No dia do massacre, Adriana Silveira deixou a filha Luiza Paula, de 14 anos, ir sozinha para a escola. Ela estava atrasada e aquele seria o último dia da jovem na Tasso da Silveira. A mãe acertaria os últimos detalhes da transferência da adolescente para outra instituição de ensino. Pouco tempo depois, Adriana foi atrás da filha e foi surpreendida pela tragédia.

“Eu estava indo pelo caminho, na rua, e vi helicópteros e muito movimento. Passou um amigo de moto e eu perguntei o que estava acontecendo. Ele perguntou se eu não sabia, eu disse que não. Ele disse que um louco entrou na escola e saiu atirando em todas as crianças.”
 (Veja ao lado a reportagem sobre o caso que foi ao ar no Jornal Nacional)
Depois da perda de um filho você não é mais a mesma pessoa"
Adriana Silveira,
mãe de vítima da chacina
Além de Luiza, Adriana tem um filho mais velho, que atualmente tem 21 anos. Mas, desde o dia da tragédia até este quarto aniversário, ela vive uma rotina de superação. “A gente tem que aprender a viver novamente. Depois da perda de um filho você não é mais a mesma pessoa. São altos e baixos, mas eu tenho que aprender a conviver. É uma luta constante. Só que hoje é por ela que eu vivo. Para que a história do que aconteceu com ela e com as demais crianças não seja em vão”.
Uma das maneiras que Adriana encontrou para superar a dor sem a filha caçula foi a luta. Ao lado de outros familiares de vítimas da tragédia, ela ajudou a fundar a “Associação dos Anjos de Realengo”. Juntos, promovem ações em escolas alertando contra o bullying e a violência nas escolas. É uma tentativa de evitar que a tragédia que atingiu seus filhos se repita.
Wellington Menezes de Oliveira, homem que atirou contra escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo (Foto: Reprodução/TV Globo)Wellington Menezes de Oliveira, homem que atirou
contra escola municipal Tasso da Silveira,
em Realengo (Foto: Reprodução/TV Globo)
“É preciso um trabalho de prevenção contra o bullying para que nada disso venha a acontecer novamente, porque este mal pode acabar com a vida de outras pessoas”, conta Adriana.
A presença de Luiza em fotografias dá força para a mãe. Por isso, ela faz questão de manter a imagem da menina sempre perto de si. “Tenho fotos em todos os lugares. Eu deixo a casa como sempre foi. Tem também objetos dela. Eu gosto de levantar todo dia e ver as coisas dela, para ter a certeza de que tudo não acabou. Mas eu tento deixar dentro de mim o melhor dela, guardar isso na minha memória. Porque ainda me assombra pensar que ela não está mais aqui”.
Mãe não perdoa assassino
Quando questionada sobre o algoz de sua filha, Wellington, Adriana não cita o nome dele. Ela confessa não ser capaz de falar em perdão.
Eu não tenho como perdoar alguém que roubou os sonhos da minha filha"
Adriana Silveira,
mãe de vítima da chacina
“Como eu vou perdoá-lo? Eu não sinto nada por ele. Mas ao lembrar o que aconteceu, o dano que ele causou a mim e a minha família, a perda, eu não tenho como perdoar essa pessoa. Eu não tenho como perdoar alguém que roubou os sonhos da minha filha. Quando ele tirou a vida dela, ele tirou a minha felicidade, a minha paz, os nossos projetos de vida e nossos sonhos. Eu não tenho como falar em perdão sobre alguém que me causou tanto mal”, desabafa Adriana.
Para marcar os quatro anos da chacina, Adriana e outros parentes das crianças e adolescentes mortas participarão de uma série de eventos. Às 9h30 desta terça-feira, será celebrada uma missa na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Realengo. Depois, todos caminharão em direção à Escola Tasso da Silveira. Lá, acontecerá uma ação em prol da importância da doação de sangue e outra sobre o desarmamento. Os Anjos de Realengo pedem que todos usem roupas brancas ou claras e levem um quilo de alimento não-perecível para doação.

À tarde, o grupo irá ao Cristo Redentor, onde será lançado o Concurso de Redação, Frases e Desenhos Anti-Bullying. Às 18h, o monumento será iluminado pela cor branca, para lembrar a importância do combate a este tipo de violência entre crianças e adolescentes.

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