segunda-feira, 17 de abril de 2017

"EU TENTEI O SUICÍDIO" - Pela primeira vez, Mar'Junior fala abertamente sobre quando tentou tirar a sua vida.

EU TENTEI O SUICÍDIO

Pela primeira vez, eu falo abertamente sobre quando eu tentei tirar a minha vida.

Quantas vezes me vi pensando em me matar? Diversas. Inúmeras vezes que perdi até a conta. Todas as vezes que eu era tratado de forma bruta pelo meu pai, no Francisco Cabrita, o colégio em que estudava, na rua onde morava, principalmente até o final do ano de 1973, início de 1974, lá vinha este pensamento. Ele parecia me perseguir. Até os 12, 13 anos eu era um bocó, um bobo, como diz na gíria, um otário. Pensei em morte a minha vida toda. Até hoje penso nela, ela faz parte do meu ser. Só que hoje de uma forma diferente do meu passado. Hoje, sei que estarei nos braços do Pai, pela minha morte natural, mas penso sempre nos meus filhos, nas minhas netas, aquilo que ficará. Sempre converso com eles que ao acontecer, eles vão chorar, vão sofrer, mas a vida continua pra eles e só lembrem de mim das coisas bacanas que vivemos juntos.
Mas o suicídio fez parte da minha vida muitos e muitos anos, até no dia em que tentei acabar comigo de vez. NUNCA falei isso em público e somente quatro pessoas sabem desta história. EU, meu pai (hoje morto, mas nunca conversamos sobre o assunto), meu irmão caçula (tem mais ou menos um ano que conversamos sobre isso pela primeira vez, ele disse não se lembrar de nada e lá se vão 35 anos) e mais uma pessoa, que prefiro não mencionar o seu nome, já que ela me disse que não se lembrava deste fato. Será que eu sonhei? Lógico que não. Foi real e ele ainda é vivo dentro de mim, não ao ponto de eu pensar mais em suicídio. Não, jamais, mas o momento em que vivi isso foi tenso, foi massacrante, mas meu Pai fez o bem vencer o mal.

Sonhei durante anos com a morte de minha mãe. Eu dentro de um ônibus, pedindo ao motorista pra correr, pois ela estava morrendo num hospital. Era uma grande agonia. Eu me sentia sufocado todas as vezes que sonhava com isso. Muitas vezes, eu sonhava acordado e exatamente da forma que sonhei, virou realidade. Esse é um grande medo que carrego em minha vida, pois diversos sonhos se tornaram e se tornam realidade. 

Tudo aconteceu no final do primeiro trimestre de 1983. Estava passando por conflitos internos grandes. Ter perdido a minha mãe no final de 1981, de uma forma prematura, tão estúpida, abalou ainda mais a minha vida. Era com ela que eu me abria, com quem chorava, com quem passava horas e horas, era a mulher que me colocava no colo, fazia cafuné, que verdadeiramente se preocupava comigo e com tudo que acontecia ao meu redor. Os meus sonhos, eu dividia com ela. Os meus pesadelos, ela conseguia entender profundamente. A minha busca de me encontrar, somente ela sabia. A perda da mamãe abalou o meu interior, me rasgou por dentro, ao ponto de não saber qual o caminho que deveria tomar, qual o destino que iria percorrer, doze meses depois estava noivo, era como se fosse a minha fuga e três meses depois terminava o meu noivado. 

Na noite seguinte, lá estava eu em casa, sentado no sofá, tinha acabado de sair de outro aposento da casa, que era o escritório do meu pai - ele foi policial e advogado, mantinha em casa uma série de armas -, eu peguei uma pistola 765, que estava carregada, em uma das gavetas da sua escrivaninha e coloquei em cima da mesa central na sala. Comecei a escrever uma série de bilhetes endereçados aos meus irmãos e algumas pessoas da família. Peguei na arma algumas vezes, coloquei o cano na minha boca, na minha cabeça, o tempo não parecia andar, mas não tive a coragem de atirar ou estava tentando tomar coragem para consumar o fato. Os minutos viraram horas. Era um sufoco que sentia a minha garganta ser dilacerada. Acreditava naquele momento que eu precisava me concentrar. Eu tinha um foco e este foco era acabar com a minha vida. Chorava, chorava, chorava muito e não tinha vontade mais de viver. Estava muito abalado. Minha mãe tinha morrido de aneurisma cerebral há uns 15 meses, mas eu ainda sentia muito a sua falta. Quando eu estava escrevendo mais um bilhete, o meu irmão, que na época devia ter aproximadamente uns doze, treze anos anos, viu todo o cenário - uma arma, um irmão chorando, vários papeis numa mesa -, eu dei um grito com ele para ele sair e ele desesperado correu para fora de casa, descendo as escadas. Morávamos numa vila, onde tinham quatro casas, a nossa ficava no andar de cima, e correndo pelo corredor, onde entravam e saíam os carros e os pedestres, que dava direto na rua. Ao mesmo tempo, eu tomei um susto com tudo aquilo e foi o que me salvou. Sem ter essa consciência na hora, aquele menininho tão doce, tão pequeno - ele era miudinho, me salvou. Tive ainda tempo de pegar a arma e guardar no mesmo lugar que eu tinha pego. Também peguei todos os bilhetes, coloquei no bolso e saí de casa, caminhando apressadamente, passando pelo mesmo corredor que dava acesso à rua. Abri o portão e mais rápido ainda, comecei a andar sem olhar pra nenhum lugar. Naquele momento, eu queria sumir e nunca mais voltar. Ao chegar próximo à esquina, tomei um susto. Era meu pai colocando um dos seus braços no meu ombro, me parou, me abraçou e com um forte cheiro de álcool começou a conversar comigo calmamente. Meu pai teve uma grande sabedoria neste dia, ele começou a falar de amor, que eu era o filho que ele mais amava, por isso levava o seu nome e em nenhum momento ele tocou na minha tentativa de suicídio, mas era lógico que ele sabia, pois ao me virar para o outro lado da rua, avistei meu caçulinha. Depois, meu pai veio com um papo meio estranho, que era pra eu fazer um exame na cabeça, pois eu tinha séria tendência de morrer da mesma forma que minha mãe. Foi um alerta? O que sei é que depois de muitos anos, vim descobrir o porquê desta preocupação. 

Logicamente, se estou aqui escrevendo este texto, é porque tive a coragem de não cometer o suicídio. Porque tive um menino que teve a ousadia de agir e me salvar. Mas, quantos não estão por aqui para nos contar como foi a sua experiência?

Por que resolvi falar sobre isso pela primeira vez publicamente?

Simples. Os 13 porquês. 13 Reasons Why.

Eu e meu filho acabamos de ver a série ontem, domingo, por volta das 23 horas. Ficamos calados, possivelmente os dois com lágrimas nos olhos. Sem nos falar, desligamos a televisão e fomos para os nossos computadores, num silêncio anormal. Somos muitos participativos, conversamos bastante, todos os dias, todos os momentos.

Na boa, precisamos acabar com essa omissão, precisamos reestruturar a nossa família. Precisamos urgentemente de JESUS. Precisamos nos socializar. Buscar o 
tête-à-tête, fazer renascer o amor paternal, maternal. 

Precisamos de Ti Senhor, em nome de JESUS!!!

Mar'Junior

Um comentário:

  1. Que coragem a sua de compartilhar esse momento. Que bom que seu irmão apareceu e que hoje você está aí fazendo um trabalho tão bonito!

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